Violência? Presente!
A invasão territorial demarcada no corpo feminino
Em 24 de fevereiro de 2021, data da invasão russa na Ucrânia, surgiram vários relatos de assédio e violência nas cidades sitiadas e corredores humanitários, locais em que as mulheres se encontravam vulneráveis ao domínio de tropas inimigas.
Em 7 de outubro de 2023, data da invasão do grupo terrorista Hamas em Israel, milhares de mulheres judias foram massacradas com sadismo e selvageria. Elas sofreram abusos brutais em frente às suas famílias e muitas foram executadas com extrema violência e terror. Outras, além de violentadas, foram levadas como reféns de guerra junto com seus filhos, e ainda são vítimas de contínuos abusos no cativeiro até serem exterminadas.
Essas violências nos remetem ao livro “Mulheres de Cinza”, de Mia Couto (1955), que ilustra a situação das mulheres em meio a uma guerra onde o seu eu lírico diz que a diferença entre guerra e paz é a seguinte: “….na guerra, os pobres são os primeiros a serem mortos; na paz, os pobres são os primeiros a morrer. Para nós mulheres, há ainda outra diferença; na guerra, passamos a ser violadas, por quem não conhecemos.”
Também em “O Segundo Sexo”, sua obra mais célebre, Simone de Beauvoir (1908-1986) escreveu: “Basta uma crise política, econômica ou religiosa , para que os direitos das mulheres sejam questionados. E durante uma guerra, as conquistas feminina mais uma vez são postas à prova.”
As violações, vão além do abuso do corpo, e não ocorrem para suprir um desejo sexual, mas sim como uma forma de humilhação, demonstração de força masculina, desigualdade feminina, manifestação de poder e objetificação das mulheres locais, cujos corpos agredidos, se tornam territórios conquistados.
O estupro das mulheres, pode ser usado para destruir a identidade cultural de um povo, podendo aniquilar toda uma etnia, ou uma nacionalidade. É como se toda uma geração do território fosse exterminada, quando elas são obrigadas a terem os filhos dos invasores.
Bibliografia:
Kennya Passos – autora do artigo, “Estupro de Guerra; o Sentido da Violação dos Corpos para o Direito Penal Internacional”.

Prisão transformada, de Leila Knijnik (@leilaknijnik_arts_)
A palavra ressignificação tornou-se um jargão do universo das artes visuais. O procedimento artístico não é novo, mas o termo passou a ser usado continuamente como uma forma de valorizar o recurso e tomar o passado para oferecer uma leitura renovada e indagadora do presente.
É o que ocorreu com o corselete. Usado, desde as suas origens medievais, como forma de opressão contra o corpo da mulher com o intuito de estabelecer um padrão de beleza, chegava a machucar a pele e a trazer consequência para a coluna. O corpo sofria para seguir padrões estéticos e sociais.

No entanto, atualmente, a peça de vestuário perdeu esse sentido. Usado acima da roupa, passou a ter uma função mais decorativa, trazendo sensualidade, mas perdendo as características de opressão. Ao trazer essa discussão para a sua obra, Leila Knijnik instaura indagações sobre o corpo da mulher através dos tempos.
O trabalho “O manequim” surge como a expressão desse pensar. Ao longo da história, o que era prisão se transforma em liberdade; e o que constituía um cerceamento do corpo passa a ser a manifestação de um gritar para o mundo que cada mulher pode usar o que quiser da maneira que melhor avaliar.
Oscar D’Ambrosio